17/03/2010

olha aqui dentro


dentro, um outro verso se cria,
mais solto,
abrupto.

sem máscaras, sem aflições.

dentro, é pulsante, sem freios nem amarras.

não se controla o passo,

não se propõe manso, apenas decola.

invade, penetrante.

dentro é o caminho, é o caminho.

vem, olha aqui dentro...

25/08/2008

LEITURA "O INFERNO SOU EU"

Leitura Dramática do texto "O Inferno Sou Eu", sobre Simone de Beauvoir.
de Juliana Rosenthal K.
Com Marisa Orth e Alessandra Maestrini
Dia 01 de setembro (segunda-feira), às 19:30h no Auditório do MASP (Av. Paulista, 1578)
A entrada é franca.
www.letrasemcena.art.br

09/07/2008

LEITURA DRAMÁTICA

O PÊNDULO DE ISHTAR
Comédia de Rachel Ripani

Direção de Otávio Martins
Com Rosi Campos, Walter Breda, Rachel Ripani. Rubens Caribé, Priscilla Carvalho, Edinho Rodrigues.

14/07 - Segunda Feira às 19:30hs no auditório do MASP

ESTRÉIA

A RESERVA
de Marta Góes
com Irene Ravache, Patrícia Gaspar e Evandro Soldatelli
sex 21:30h
sáb 21h
dom 18h até 32/8
Teatro Cosipa Cultura: av. do Café, 277, SP, tel. (11) 5070-70180

09/04/2008

Céu


Era apenas um cantinho de céu. Mas bastou aquela fresta para que a imaginação crescesse e tomasse conta do infinito. De repente, ela já estava na praia, deitada naquela areia branca e fina. Ela via as águas tranqüilas do mar, analisava sua cor azul transparente. Olhava para o céu, agora imenso, azul limpo e com algumas nuvens brancas formando um esplendoroso contraste. Depois, avistava as copas das árvores que fazem uma pequena sombra na beirada da praia. Sentia o cheiro verde do mato. E ficava com aquela dúvida cruel que assombra todo banhista antes do primeiro mergulho: entrar ou não entrar na água. Mas como se tratava apenas de imaginação, não relutou muito e se atirou na água salgada e fria. Saiu nadando, nadando, nadando... virou peixe.

07/04/2008

Mariela e Antenor

por Juliana Rosenthal K.


Quando Antenor disse para Mariela que eles deveriam apimentar a sua vida sexual, ela imediatamente ficou roxa. Ele não viu, pois nem ousou falar isso olhando em seus olhos. Mariela, aquela moça que casou virgem, Antenor sabia que até o primeiro beijo fora com ele.
Mas os tempos eram outros, as crianças já estavam crescidas, bastava correr pelos canais da televisão a cabo para se achar um com conteúdo adulto, e a rotina já começava a dar sinais de que o casamento precisava de uma animação.
Silêncio. Foi o silêncio que pairou na sala, e Antenor quase se arrependeu do que falara. Mariela perguntou se ele estava com fome, e se levantou para preparar o jantar.
Antenor não tocou mais no assunto, acima de tudo respeitava sua esposa, entendeu que Mariela não era disso.
Foi ela que não tirou essa idéia da cabeça. Quando era moça ainda, via escondido as revistas proibidas do seu irmão mais velho, e quietinha, no seu quarto, imaginava coisas. O que ela não imaginava que essas coisas podiam ser feitas com seu próprio marido.
Mariela não ousou dividir isso com ninguém, nem mesmo com Clarissa, sua prima solteirona, que sempre quis levá-la para o mau caminho, como diziam seus pais.
Alguns meses depois, Mariela foi levar uma roupa em uma nova tinturaria e reparou que no andar debaixo da loja ao lado havia um sex shop. Ela, que sempre achara isso coisa de mulher da vida, se pegou olhando na vitrine e tentando discretamente ver o preço de uma fantasia de enfermeira. Ela se recordava bem, a história que mais a excitara na infância era a de uma enfermeira que, ao socorrer um ferido de guerra, acabava totalmente entregue a ele numa praia deserta. Lembrava de todos os detalhes.
Que loucura, pensou ela, e foi embora antes que alguém a visse. Mas deu tempo de memorizar o telefone da loja. Mariela sempre teve uma ótima memória.
Ela chegou em casa inquieta. Ficou parada por alguns instantes na frente do aparelho e num rompante de coragem discou. Claro que engrossou a voz, mentiu o nome e disse que estava procurando um presente para uma amiga. A atendente fingiu que acreditou, e por ter experiência com iniciantes, foi extremamente gentil. Falou até que ela podia dividir a fantasia em três vezes. Anastácia (o nome que Mariela disse ser o seu, o primeiro que veio a sua cabeça, o nome da sua avó, será que ela iria para o inferno por isso?) titubeou. Ela não poderia ir até a loja buscar. Não conseguiria. A atendente então deu o golpe final, comunicou que poderia mandar pelo correio com boleto. Chegava em três dias. E por ser a primeira compra, ela teria 15% de desconto. Mariela topou.
Quando desligou estava nervosa. Será que o pacote vinha com o logotipo da loja? O que o porteiro ia pensar? Seu marido concorria a síndico!
Ela passou os três dias seguintes diferente. Antenor perguntava o que ela tinha e ela respondia: Nada. E dava um sorrisinho de canto de boca, pra depois sentir o coração disparar. Ele pensava ser tpm, ou menopausa, ou simplesmente coisa de mulher que às vezes fica triste, ou feliz, ou com raiva sem motivo nenhum.
O tal dia chegou. Antenor saiu para o trabalho e Mariela ficou cuidando das suas coisas, esperando impaciente o interfone tocar. Demorou, foi só no final da novela das seis que o porteiro ligou pra avisar. E de repente a novela das seis parecia meio infantil.
Ela foi correndo na portaria. Ele estava lá, o embrulho, de papel pardo e sem nada escrito. Que sem graça, ela pensou.
Antenor voltaria tarde pois tinha um jantar com cliente. Era perfeito. Ele jamais imaginaria uma surpresa dessas.
Mariela jantou calmamente, bebeu uma taça de vinho, tomou um banho longo, lavou os cabelos, hidratou o corpo, se maquiou, e finalmente abriu o embrulho em cima da cama. Vestiu a roupa com tranqüilidade. Primeiro as meias brancas, a cinta-liga branca, o sapato altíssimo também branco, a saia minúscula, o top, o avental com a cruz vermelha e o chapeuzinho. Ela se olhou no espelho admirada. Mesmo depois de duas gravidezes e menos ginástica do que gostaria, ela estava muito bem.
Ficou a espreita. Já era bem tarde da noite quando ouviu o barulho da porta da casa se abrindo. Deu um salto da cama e se arrumou, sentindo seu coração querer pular de dentro do peito. Arrumou o chapeuzinho, se colocou de frente e aguardou na pose.
Antenor abriu a porta do quarto e deu de cara com Mariela daquele jeito, passando a língua nos lábios. Foi tamanho o susto que ele desmaiou.
Mariela entrou em pânico. Ela sabia que não deveria ter feito isso. Ele vai achar que virei uma qualquer, vai perder o respeito, que coisa ridícula.
Em vez de tentar reanimar seu marido, ela rapidamente tirou a roupa e jogou para debaixo da cama. Limpou o batom, passou um lenço na cara, deitou de costas para ele, e fingiu dormir.
Antenor recobrou a consciência e levantou devagar, ainda tonto, sem saber direito o que acontecera. Ele olhou para Mariela e ela parecia dormir tranquilamente. Que coisa. Ele então tirou a roupa, foi ao banheiro, e também se deitou. Estava realmente cansado, tivera um dia difícil. Devia estar com stress, pensou.
Foi quando sentiu algo lhe incomodando em baixo do travesseiro. Ele enfiou a mão e tirou um objeto estranho. Acendeu o abajur e identificou um pequeno estetoscópio. Ele olhou para Mariela e ao se debruçar para beijá-la sentiu seu perfume.
Eu te amo, disse ele, sussurando em seu ouvido.
Antenor apagou a luz, se virou e ouviu bem baixinho:
- Eu também.

Primeiro Amor

por Juliana Rosenthal K.


De repente meu coração começou a bater num ritmo diferente, minha respiração se tornou ofegante, e minhas bochechas ficaram vermelhas. Eu tinha onze anos e costumava fazer aulas de natação em uma escola perto da minha casa. Eu nunca gostei de nadar, mas a primeira vez que vi aquele professor eu decidi que me tornaria uma nadadora.
Ele tinha vinte e seis anos, tinha os cabelos loiros, os olhos bem azuis, e um corpo maravilhoso. Como um príncipe, que pulara de um conto de fadas para dentro daquela piscina.
Toda aula era a mesma coisa, eu paralisava, e meu corpinho tremia cada vez que ele me tocava para corrigir algum exercício. Ele era tão doce, e um pequeno sorriso significava para mim uma secreta declaração de amor.
O ano estava terminando e eu ouvi dizer que ele estava fazendo uma peça de teatro. Eu não podia acreditar que ele era ator. Como alguém podia ser tão perfeito? A peça era Rapunzel, e passava num teatro muito longe da minha casa, mas nada poderia me impedir. Meus pais estavam viajando, então pedi a minha avó para me levar. Sim, minha avó foi ver Rapunzel, comigo e duas amigas. Eu comprei flores brancas no caminho e seguimos para o Teatro.
A peça começou e ele não apareceu. A peça acabou e ele não apareceu. Descobri, então, que ele trabalhava na técnica do espetáculo. Eu estava um pouco envergonhada, mas ainda assim lhe entreguei as flores e sorri. Claro que ele estava sem graça, pois não imaginou que eu iria realmente ver a “sua peça”. Eu voltei para casa feliz e ele parou de trabalhar na escola algumas semanas depois.
Antes de ir embora, porém, ele me deu seu telefone. Então, alguns meses mais tarde, quando eu estava fazendo uma peça, liguei e o convidei para me assistir.
Eu podia ouvir meu coração batendo novamente e tinha certeza de que, dessa vez, ele iria se apaixonar por mim.
Eu fiz o melhor espetáculo que pude, mas ele não foi. Me disse algo sobre uma mulher ciumenta, mas eu não entendi. Foi a última vez que nos falamos.
Alguns meses depois alguém me disse que ele tinha se casado.
Eu não sei o que aconteceu com ele desde então.
Eu não me tornei uma nadadora, mas ainda gosto de cheiro de cloro.